8.5.14
Marca-Passo.
Se eu disser que passou, não me deixe passar, e que o passado não seja presente pelo caminho em que ainda vamos passar. Não acompanhe meu descompasso, pois de passo em passo, podemos tropeçar. Passe por mim sem apertar o passo, pois não passo de uma passageira sem compasso. Se eu disser que passou, espere o próximo passo. Estou a um passo de despassar o meu passo-a-passo.
6.5.14
Cuidado: curva perigosa.
Eu sou um encaixe sobre as minhas quatro rodas. Caibo perfeitamente entre duas portas, e como um papel, me dobro em vezes suficientes para que eu não exista mais. Em cada vinco de mim, a dor que em pouco tempo vou esquecer, e que por muito tempo será lembrada, mas não mais em mim. E na minha aceleração constante, subo em árvores ou me escondo sob velhos caminhões, e quem sabe não apago mais um poste como quem assopra uma vela no escuro.
Sobre minhas quatro rodas, sou obsoleta e desnecessária, e meu sangue cheira à gasolina derramada no asfalto. Meus ossos, maleáveis como as marchas, passam de um em um pela minha pele, quebrando as janelas de meus olhos em sua última freada.
Sobre minhas quatro rodas, sou obsoleta e desnecessária, e meu sangue cheira à gasolina derramada no asfalto. Meus ossos, maleáveis como as marchas, passam de um em um pela minha pele, quebrando as janelas de meus olhos em sua última freada.
5.5.14
Escreva antes de morrer.
Mas caso eu morra, não deixe de ler o que escrevi. Do mundo comum nós nos partimos todos os dias, mas hoje estou partindo de onde você me encontrou, e talvez esse mundo não seja só mais um corpo girando em torno de si. Se não posso correr pra frente e quem anda pra trás é caranguejo, só me resta o que vai acima do céu ou abaixo da terra.
Não é engraçado? Deitar sob a terra para encontrar o tal reino dos céus. Quando eu era pequena, nunca me disseram que Deus era fã de pescaria. Mas bem que ele tem essa cara, de velho pescador, remando seu barquinho sem rumo algum sobre o tranquilo rio de cemitérios, mirando aqui e ali o seu anzol para buscar um peixe que valha a pena.
Eu ainda não aprendi a nadar em rio de correnteza fraca, mas hoje vou me esforçar para encontrar o anzol.
26.4.14
Noventa Dias.
Minha metade é um oceano, e está a horas de distância de mim. E meu oceano deságua em ondas extensas, suaves. Minha metade é um mar no meio do caminho, de um caminho que já passa da metade. Esse caminho é ainda meu único meio de chegar ao outro lado desse mar, desse oceano, dessa metade.
Eu sou areia e desmancho quando em mim você deságua a metade pela qual anseio todos os segundos. Você é amor e eu sou teu mar, e de ti eu bebo apressada esse oceano que separa sua metade da minha.
28.10.13
A mim, de mim.
Você fica bonita sorrindo, sabe. Não devia parar nunca, porque a felicidade, mesmo que não exista, é boa de fingir e de passar pros outros. E não é felicidade que te falta. É engraçado quem diz que só é feliz quem sorri. O sorriso é trágico, já dizia Da Vinci. Não que ele tenha dito, mas sabe, tem aquele quadro dele e alguém deve ter inventado essa história só pra dar um propósito a qualquer desenho. É que eu acho que você é feliz de fora pra dentro, mas sinto falta do seu sorriso quando quero ser feliz de dentro pra fora.
Semana que vem, quando você quiser ser mais feliz, vou te procurar bem cedo pra gente ter aquela conversa que a ausência dos seus sorrisos adiou por tantos anos. Vou te levar ao meu lugar favorito e fingir que infelizmente nos enganamos, que entramos na rua errada, a de dentro e a de fora. Vou te usar de desculpa só pra dizer que sua felicidade cabe em mim. Por ora, felicito seu sorriso com as mágoas que sobraram.
Semana que vem, quando você quiser ser mais feliz, vou te procurar bem cedo pra gente ter aquela conversa que a ausência dos seus sorrisos adiou por tantos anos. Vou te levar ao meu lugar favorito e fingir que infelizmente nos enganamos, que entramos na rua errada, a de dentro e a de fora. Vou te usar de desculpa só pra dizer que sua felicidade cabe em mim. Por ora, felicito seu sorriso com as mágoas que sobraram.
24.10.13
É a gente. Nos meus dedos eu pude contar quantas vezes te escutei naquelas promessas refinadas das músicas que a gente gostava. Era a gente, a gente mesmo, tentando encontrar defeitos nas estrofes e vencendo os versos com nossos cansados suspiros, que vinham hora ou outra pontuar os esquecimentos de nossas mágoas. Foi a gente, mais eu do que você, menos você em mim, mais de mim em nós, nós em lugar nenhum.
Acabou a nossa história e eu ainda vejo a gente bem ali, sendo ninguém mais que a gente. Deve ser porque a gente não se acabou, não desmoronou, e sobrou tudo até onde eu vejo a gente. E de gente, somos agora apenas nós, apertados ou desatados, segurando de vez em quando aquilo que a gente foi. Só a gente.
Acabou a nossa história e eu ainda vejo a gente bem ali, sendo ninguém mais que a gente. Deve ser porque a gente não se acabou, não desmoronou, e sobrou tudo até onde eu vejo a gente. E de gente, somos agora apenas nós, apertados ou desatados, segurando de vez em quando aquilo que a gente foi. Só a gente.
19.10.13
Eu disse que voltava cedo e você bateu o pé. Só mais meia horinha. A gente saiu umas duas horas depois. A madrugada não combinava com nenhuma música do meu carro, e foi por isso e por outras coisas que você desligou o som. Das suas manias, essa é a que eu menos gosto. Mas as manias são esses reflexos tortos da gente. Dali pra sua casa eram sei lá, uns quinze minutos ou menos, mas aquela discussão ausente fez o caminho se prolongar pelo que me pareceu uma eternidade e meia.
Sobe comigo rapidinho. Mas já é tarde. Mas sobe, você não conhece a minha casa. E isso são horas de conhecer a casa dos outros? Me dá as chaves, coloquei na sua bolsa. Você sabe que eu odeio vinho. Tô pensando em quebrar essa parede pra sala parecer maior. Obra dá um trabalhão. Você viu aonde eu coloquei o saca-rolha? Não posso voltar tarde. Mas de manhã é cedo. Onde eu deixei minha blusa? Tchau, não some. Eu volto.
Sobe comigo rapidinho. Mas já é tarde. Mas sobe, você não conhece a minha casa. E isso são horas de conhecer a casa dos outros? Me dá as chaves, coloquei na sua bolsa. Você sabe que eu odeio vinho. Tô pensando em quebrar essa parede pra sala parecer maior. Obra dá um trabalhão. Você viu aonde eu coloquei o saca-rolha? Não posso voltar tarde. Mas de manhã é cedo. Onde eu deixei minha blusa? Tchau, não some. Eu volto.
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